terça-feira, 4 de outubro de 2011

Menina

"Aonde você mora, aonde você foi morar?"

É, menina. De você, eu herdei coisas poucas e irremediáveis. Herdei essa mania incorrigível de fumar com apenas um dos pés no chão. De observar o céu sem perceber se chove ou faz sol, daquele meu jeito totalmente absorto em pensamentos, emoções e desejos espremidos, queimando pouco a pouco por entre os lábios e as pontas dos dedos. É, essa é realmente uma das poucas coisas que eu herdei de você, menina.
Herdei também esse desejo insaciável e incontido por um café preto, doce, excessivamente quente e quem sabe até "meio ruim". Um café servido entre travesseiros e lençóis, com a luz invadindo o quarto pelas frestas da cortina e beijos vagarosos de um "bom dia" sem nenhuma pressa.
Mas não é nenhuma dessas heranças que me incomoda no final do dia, menina. O que me incomoda mesmo é ter herdado essa esperança insistente, invencível e quase infantil de que contos de fadas não perdem a magia depois de soar meia noite, desde que, até o dia amanhecer, o teu corpo não se desenrosque nem por um segundo do meu.
"Porque um dia ele volta. Ou você o recria, o encontra naquela esquina desconhecida, naquela guria bonita que você cansou de não notar. É a única serventia da fé quando só se consegue acordar de sonhos lúcidos. Eu sei que ainda tenho um corredor inteiro menina, mas acredito. Acredito quando somos só você e eu. E acredito que esta vida ainda tem muita coisa bonita, simplesmente porque comecei a acreditar. Em ti, em mim, em nós e nesta coisa bonita que nasce, que renasce a cada dia, em cada manhã de sol (ou de chuva) que te vejo, que te tenho. E eu, logo eu, que quis tanto carinho, paixão, preoucupação, aventura, luxúria, colo, tesão, proteção, beijo, abraço e maravilha, achei tudo no mesmo ser, tudo em você. Basta olhar. Basta um sorriso comedido, uma meia dúzia de palavras banais e você me ganha, me leva, me atrai, me faz acreditar. E eu me traio. Falar que é amor o que eu sinto por ti é pouco menina, é pouco. E definir nosso amor, baixinho, é bobagem."

Leh Soares
"Ainda bebo muito café e leio bastante, mas nada é como antes. O café parece sempre meio frio e a cada página do livro eu olho por trás do ombro esperando que você venha confundir minha cabeça. Nunca pensei que saberia no sentido literal o que saudade significa, mas agora tudo me faz sentir sua falta."
Tenho uma mania irremediável de achar que sempre sei o que é melhor pra mim. Mania de achar que consigo prever quais serão ao meus desejos num futuro distante, ainda que volta e meia me surpreenda com a diferença entre eles de uma semana pra outra. Sempre soube que tenho muito pra aprender, mas sabe, faz pouco tempo que passei a cogitar a possibilidade de que talvez eu não seja uma pessoa problemática. A possibilidade de que talvez eu seja simplesmente nova demais pra achar que me conheço tão bem assim. Nova demais pra tudo isso.

domingo, 2 de outubro de 2011

Divagando ao som de Adele - Someone Like You / Set Fire to The Rain

As vezes você pega caminhos que ninguém vê. E você passa. E transpassa, trespassa. E você divaga e vaga silenciosamente por aquele vale que nem sabia que ainda existia. Você não queria saber. Aí você volta. E dá saudade. De repente dá saudade. Uma saudade que você não quer sentir. Uma saudade que você não pode sentir. E dá um sentimento meio Caio Fernando Abreu, aquele de sempre reticências, vírgulas e nunca pontos finais. O que dá, aliás, é um misto de sentimentos que você não entende. Você não quer entender. Não quer falar. E nem vai.
Você se demora um pouco. Esquece da realidade que construiu. Esquece até sentir um medo tão avassalador que te faz correr dali, fingindo realmente acreditar que essa foi a última vez.