sexta-feira, 24 de abril de 2009

Capítulo 13 - Uma nota sobre um certo Oxford preto

Ela sim era aquela amiga de meias palavras. Às vezes, um terço de palavras já bastavam entre a gente. Foi naquele dia, no banco enquanto ouvíamos música e riamos das pessoas que passavam e olhavam para nós entre assustadas ou com uma expressão clara de quem pensa “eis aí duas garotas que não tem nada pra fazer da vida”, que ela me contou que ele e ela já se conheciam faz tempo. Há algum tempo atrás, se cruzavam por aí com freqüência. Se cruzaaaaavam, por aí. Apesar disso, nenhum dos dois jamais se apaixonou um pelo outro. Era estranho como agora a minha vida e a dela estavam misturadas; realidades, presente, passado e até os planos pro futuro. A garota do Oxford / a “meu grupo de estudo” entrara de cabeça no meu mundo e eu no dela, sem esforço algum.


P.S. Vencendo o bloqueio criativo por um pedido de um amigo especial.
P.P.S. Ficar sem Internet dá nisso.

Capítulo 12

Íamos ao laboratório de informática e lá estava ele; biblioteca e lá estava ele. Manter a concentração e estudar parecia ridiculamente impossível. Era como se alguma coisa nele levasse consigo a minha atenção integral. Nossa prova começaria as 19 horas, mas orgulhosamente, as 17 horas nós já havíamos vencido todo o conteúdo. Meu cérebro definitivamente não estava acostumado a acordar tão cedo ou ser tão utilizado e eu me sentia esgotada. Pensei em algo que pudesse me descansar a mente nas 2 horas que nos restavam e acabamos deitadas no banco da universidade ouvindo música e falando sobre a vida. Deu certo, mas as 2 horas passaram como 15 minutos. A tal prova foi mais fácil do que eu esperava, mas não fácil o suficiente para me deixar segura. Enfim, prova terminada, seguimos para o coquetel de lançamento da gincana. E mais uma vez, lá estava ele. Tocando Bob Marley no violão e rindo despreocupadamente com os amigos. Cumprimentou ao nos ver e assim que pôde veio perguntar sobre a prova. Eu podia sentir que nenhum dos meus movimentos parecia natural e meu rosto deveria estar pelo menos uns 2 tons mais vermelhos que o normal; como sempre acontecia. Apesar disso, alguma coisa estava diferente em mim. Não duvidaria se me dissessem que era pelo alto nível de cansaço.. mas eu não queria estender a conversa. Deixei que a garota do Oxford respondesse a ele sobre as perguntas técnicas e conduzisse o resto do diálogo, comi um pão de queijo e desci rumo ao saguão do bloco onde eu encontraria com o meu pai em poucos minutos e viria para casa, finalmente.

Capítulo 11

Aquela tarde foi só o começo. Nunca tinha estudado tanto. Não lembrava de época nenhuma, desses dois anos de faculdade, onde eu tivesse realmente cansado o meu cérebro por acúmulo avançado e crítico de informações técnicas. Eu gostava da sensação de aproveitamento neural, mas não sentia que aquela realidade permanente era pra mim. Um dos dois feriados já tinha passado e, conseqüentemente, metade das minhas provas também. A pior delas estava por vir e convoquei a “meu grupo de estudo” em um ato heróico - ou um lapso de insanidade - para passar o dia todo na faculdade estudando. Não lembrava que ele fazia algumas matérias pela manhã. Era uma terça feira e eu pude ver, entre um bocejo e outro, ele surgindo do outro lado do corredor. Como era possível eu não ter esquecido o efeito que aquele sorriso torto causava sob meus músculos? Pude sentir antes mesmo que ele nos visse ali. “Fazendo o que por aqui, meninas?” Ele parecia desocupado. “Estudando.. Pra variar.” Respondeu a garota do Oxford preto entre um riso e outro. Ele olhou pra mim e retrucou “Ah, muuuito obrigada por estudarem! O feriado foi muito bom!” Com aquele sorriso torto nos lábios. Ri sem conseguir sustentar o olhar e logo estávamos contando a ele sobre as provas que ainda restavam, a perspectiva nada otimista de nosso dia e comentando sobre a gincana do nosso curso que estava se aproximando; brincando e pedindo informações extra-oficiais já que ele estava na turma organizadora do evento. Nos despedimos, mas aquele dia ele não sairia de perto de nós; literalmente.

Capítulo 10

Ele não estava lá. Nem naquele dia, nem no outro e nem no outro. Talvez tivesse se cansado dos convites fracassados. Talvez a faculdade finalmente estivesse exigindo dele mais do que alguns passeios pelo campus a procura de pessoas para conversar. Não tinha dormido bem naquela noite e a última coisa que eu queria era ter que passar o dia todo na faculdade estudando. Era véspera de uma bateria de provas e eu sabia que em casa não conseguiria estudar de jeito nenhum. A garota do Oxford preto, como boa companheira inseparável, foi eleita também para o cargo “meu grupo de estudo”. Deu tempo de acordar, comer alguma coisa, tomar um banho rápido e entrar na Internet para baixar os milhares de arquivos que nos fariam companhia durante a tarde.
Não entendo porque aqueles recados sem aviso prévio me pegavam completamente desprevenida. Lá estava ele me perguntando se eu estaria na “festa de toda a quarta feira” logo mais a noite. “Festa? Depois da minha noite mal dormida, tarde de estudo e prova?” Pensei comigo. Foi a primeira vez que eu neguei o (que eu queria muito que tivesse sido um) convite por vontade própria. Lutei contra o sono e o mal humor que as minhas previsões nada otimistas para o dia me deixava e respondi com a minha naturalidade espontaneamente forjada: Nossa, hoje acho muito difícil; mas vamos ver, né? Tu vais? Bom, qualquer coisas nos falamos depois, to indo pra biblioteca estudar com a garota do Oxford preto. Sabe, né? Pra variar atrasada.” Li, reli, me pareceu descente, enviei. Antes que pudesse terminar de imprimir todos os materiais - e não que a minha impressora fosse muito rápida – lá estava a resposta: Estudar? E mais uma vez, lá fui eu me esforçar: “É, viu só? Pessoal do nosso curso estuda e isso é tão inédito que eles dão feriado logo em seguida.” Teríamos duas semanas com feriados, uma colada na outra e realmente parecia graças a maratona de provas e mais provas. Foi só atualizar a página e lá estava “Nossa, continuem estudando então, por favor!” E eu fui de encontro ao meu destino; sem me despedir.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Capítulo 9

Fazia décadas que ele nem aparecia mais. Meus dias já tinham voltado ao vazio que costumavam ser. Era só mais um daqueles encontros na casa dela entre alguma festa qualquer e alguma aula aleatória. Eu e a loira já tínhamos histórias e mais histórias pra contar. Enquanto eu organizava os arquivos do notebook que ela insiste em bagunçar, eu pude ouvir sua voz abafada pela acústica do banheiro me cutucando a ferida. “Será que ele vai estar lá?” Me perguntou displicentemente enquanto, suponho eu, fazia a maquiagem. Foi como se alguma coisa escondida reavivasse em mim e esmagasse o meu estômago. Porque a pergunta assim, sem aviso prévio, sem tempo pra eu me preparar? Parecia covardia. “Não sei” Me limitei a dizer e rezei para que o assunto encerrasse. Eu e ela sempre fomos amigas mas nunca tivemos aquela conexão mental onde meias palavras eram suficientes; só eu sabia o quanto isso fazia falta. “Eu acho que ele tem “um tombo” pela garota do Oxford preto, né?” Essa eu não poderia responder. “Não sei” me limitei a responder novamente. Deve ter sido baixo demais, porque quando dei por mim ela já estava escorada na parede com metade do rosto aparecendo pela porta do quarto e uma expressão de curiosidade e diversão. “Não sei, ou ele tem por ela, ou ele tem por nós, né? Nunca vi convidar tanto pra tomar aquelas tais cervejas... Na casa dele deve ter uma festa permanente.” Disse tentando parecer o mas divertida possível. Eu não estava me divertindo com a situação e tinha certeza que naquela noite não conseguiria comer mais nada.